branco sujo

Curadoria editorial dedicada à cultura visual contemporânea.

Há – literalmente – um rinoceronte na sala

The Rhinoceros in the Room. Or: A Tale of Banality and Evil” está agora aberto ao público no Kunstmuseum Magdeburg (Magdeburg, Saxónia‑Anhalt, Alemanha), onde permanecerá em exibição até 5 de julho de 2026.

Concebida por Itamar Gov, a instalação ocupa integralmente a nave românica da antiga igreja que integra o museu. No centro do espaço ergue‑se um rinoceronte monumental, uma escultura com cerca de 9 metros de altura, 17 metros de comprimento e 7 metros de largura, cuja escala transforma radicalmente a percepção do visitante, comprimindo o espaço e condicionando a forma como se circula.

O animal apresenta-se como um corpo híbrido entre ficção e realidade, criado artisticamente em polyaster e produzido fisicamente como um inflável em tecido técnico de poliéster B1, desenvolvido em colaboração com a AIR Promotion GmbH.

A obra convoca múltiplas referências: o universo de Rinoceronte, de Eugène Ionesco, onde a metamorfose coletiva simboliza a adesão cega a ideologias autoritárias; o célebre exercício filosófico entre Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, sobre a impossibilidade de provar a inexistência de um rinoceronte numa sala; e o imaginário europeu associado ao rinoceronte desde o emblemático Rhinocerus de Albrecht Dürer, explorando o seu simbolismo ambivalente.

A experiência é intensificada por uma composição sonora multicanal de Bruno Delepelaire, com participação de Moritz Huemer e da contralto Noa Beinart, que combina cânticos medievais, o poema Erlkönig de Goethe e a canção hebraica Hitragut. Esta paisagem sonora alterna entre serenidade e tensão, definindo o ritmo da visita.

A instalação dialoga ainda com a expressão hebraica “rhinocerizar‑se”, usada para descrever o processo pelo qual indivíduos e sociedades aderem a correntes autoritárias até se tornarem indiferentes às suas consequências, eco direto da metáfora central de Ionesco sobre conformidade coletiva.

O espaço da igreja torna‑se, assim, um território onde memória, mito, política e linguagem se entrecruzam, expondo os mecanismos de normalização do inaceitável.

Por fim, o título subverte a expressão inglesa “the elephant in the room”, substituindo o elefante por um rinoceronte, um animal que avança sem desvio, para evocar aquilo que é evidente, mas persistentemente ignorado.

Fonte / Imagens: Itamar Gov

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